quinta-feira, 20 de abril de 2017

Sobre o tempo

"Nós somos duração (ou, pelo menos, «duro desejo de durar», como Paul Éluard defendia). Quer dizer, trazemos em nós a memória e a presença de tempos muito diversos e isso, por muito que nos custe, é um dom. Conhecer-se é tomar consciência desses tempos que coexistem em nós, mesmo no seu contraste. Gostaríamos que a vida fosse mais linear e harmoniosa, não tivesse a marca daquele solavanco ou daquela ferida, não tivesse atravessado aquele estremecimento. É verdade, para bem e para mal, aquilo que Camus escreveu: «O homem é o único animal que se recusa a ser o que é.» Mas em nós coexistirão sempre o breu e a lâmpada, o tesouro e o barro, e a atitude não é mudar aquilo que não podemos mudar, mas perceber que a ambivalência, em certo grau, também é uma respiração que nos pertence. Bem desejaríamos poder travar ou modificar o tempo. Porém, o importante não é ser perfeito: o fundamental é ser inteiro. Trata-se, assim, de integrar, na composição que fazemos da existência, a diversidade, a fragmentação e o contraste. E os pequenos triunfos dão-nos fortaleza para olhar as grandes humilhações, e as dificuldades vividas oferecem-nos sabedoria para olhar de outra maneira para tudo o resto. As experiências de liberdade ampliam a capacidade e a esperança para suportar os momentos em que a perdemos; e as experiências em que nos sentimos aprisionados consolidam a resistência, a força e até o sentido de humor para vivermos os tempos de liberdade. Há, portanto, que afastar a tentação do cinismo e aceitar que somos feitos efetivamente destes materiais tão diferentes e que tudo isso é matéria de vida e de dádiva".

(José Tolentino Mendonça)

daqui:

 http://www.estradaclara.pt/index.php/2016/09/12/725/

4 comentários:

  1. Meus amigos,
    Penso que além do tempo e do espaço, do sucesso e do fracasso paira nas alturas águia da consciência. Acima das intempéries ela pode descer, alimentar-se, mergulhar nas águas, enfrentar os ventos e tornar sempre a sua Morada, o seu lugar magestoso e pleno de onde ela, a consciência, contempla a imensidão do infinito...

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  2. Mestres, não se esqueçam dos seus tempos de aprendizes!
    Eternos aprendizes somos nós, ainda que na função de mestres.
    Quero relembrá-los um trecho de uma aula do Nível Superior I, que tratou deste tema sobre tempo e espaço.
    Talvez, nem todos relembrem, mas, Rute, sem dúvida, terá os seus arquivos remexidos e a aula encontrada.
    Vamos a ele.

    Somos uma fusão de tempo-espaço numa confusão que dá gosto! Seria a nossa Alma uma parte do Inconsciente Coletivo Divino, assim como a Personalidade é uma partícula do Inconsciente Coletivo Humano? Se assim for, justifica-se a afirmação quântica de que, sendo parte do Todo, nós também somos o Todo. E, da mesma forma, somos todos responsáveis pelo caos em que vive a humanidade, pois, não é um ou outro o culpado de tudo isso, mas, o somatório das psiques humanas, que Jung chamou de Inconsciente Coletivo.
    Será que conseguiremos destrinchar esse intrincado quebra-cabeça? Esqueçam as Leis de Newton, e se transportem para fora da esfera física que nos prende à matéria. Entrem no mundo subatômico de Heisenberg, e se vejam viajando no tempo, sem escalas, sem tempo e nem espaço.
    Avancem em direção ao passado, recuem para o futuro, transportem o presente para onde ele melhor se acomode, e não se deixem enganar pelo calendário. Todos nós vivemos muito além do tempo, e ocupamos o espaço que melhor nos aprouver, de acordo com as ondas e partículas que se alternam à nossa frente.
    Se soubermos agir com naturalidade numa contínua e constante travessia dos portais do tempo, cancelaremos karmas e conquistaremos méritos, acelerando a evolução da alma, não precisando de várias encarnações, mas, cumprindo diversas missões numa única vida.

    Abraços.
    Gilberto

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  3. Meus queridos,

    Muito obrigado pelos vossos comentários. Foi mesmo para este diálogo que eu resolvi evocar este texto de José Tolentino Mendonça. Ele é padre católico e é poeta também. No entanto, ele consegue transmutar toda a sua tradição católica e consegue ir para outros mares, talvez não tão profundos como os nossos, mas que para lá caminham.

    Eu gosto muito da co-existência em nós de muitas coisas: daquilo que pensamos que é nosso, daquilo que é Único e daquilo que é Tudo. Nós somos nós mesmos e somos o todo. Tudo ao mesmo tempo e no mesmo espaço. E transcendendo esse mesmo espaço.

    Querido Gilberto, tu falavas que Jung falava do somatório das psiques humanas como sendo o Inconsciente Colectivo. Eu acho que isso está muito mais para além de um somatório. É tudo ao mesmo tempo e de todas as maneiras possíveis e impossíveis e ainda por realizar. É algo que escapa à nossa consciência e inteligência ainda limitada.

    Muitos abraços a todos
    Jorgr

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  4. Querido amigo, Jorge Vicente:
    Acredito que Jung queria ir bem além do que somente psiques humanas encarnadas, mas, talvez, fosse mais conveniente que não ultrapassasse certos limites, para que não provocasse o muito que já vinha fazendo com a sociedade científica de sua época.
    Como disseste muito bem, na sua frase final: é algo que escapa à nossa consciência e inteligência ainda limitada.
    O Todo pode ser aceito, mas não explicado. O Absoluto pode ser conceituado, mas não compreendido.
    A ciência pode saber muito, mas não tudo.
    Somos eternos buscadores de verdades, Indianas Jones saindo atrás de riquezas espirituais.
    Abraços a todos.
    Gilberto.

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